Em busca do tempo perdido

 

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ENTREVISTA COM JONI STERNBACH

Apesar do pique slow motion de suas imagens, Joni Sternbach é rápida no gatilho. Professora de arte na Universidade de Nova York, há anos pesquisa antigas técnicas fotográficas e desenvolve projetos ousados. Para realizar os retratos de Surfland, por exemplo, teve de levar um estúdio portátil para a praia, além de equipamento, material químico e guarda-chuva. A ferrotipia, técnica utilizada pela fotógrafa, foi criada por volta de 1850. Depois do clique, os produtos químicos devem ser aplicados à mão, expostos e desenvolvidos sobre uma placa de ferro molhada. Durante o processo, é preciso ficar imóvel e fazer silêncio absoluto. Com toda a parafernália, foi impossível passar despercebida. “Os surfistas me acharam”, brinca ela, que sem esforço convenceu várias figuras da Califórnia e da região de Montauk, NY, a participarem da empreitada. Um ano depois, Sternbach exibe hoje 47 fotografias no Peabody Essex Museum, em Massachusetts. A seguir, o bate-papo com Joni.

Por Ana Maria Peres

De onde vem seu interesse pelo surf?

Tenho fotografado pessoas na praia há quatro anos. Os retratos de Surfland foram uma evolução de meu trabalho anterior, sobre detalhes do mar e do céu. Por este motivo, tive de retornar diversas vezes para o mesmo local, em Ditch Plains, na região de Montauk. Os surfistas compõem a paisagem de lá, de forma que encontraram um caminho para entrar nas minhas fotografias e na minha vida. 

Você já conhecia alguns dos personagens retratados?
Nenhuma alma. Simplesmente armei acampamento na praia com a câmera, mais a caixa escura, e esperei que aquela instalação despertasse algum interesse. Deu certo.

Assim como a fotografia, a praia subverte o tempo?
Sim. Você pode estar lá por horas e ter a sensação de que uma vida se passou, ou achar que o relógio estava em fast-foward. Na praia, estamos despidos de nossa rotina e imersos em outro aspecto da vida, chamado tempo livre.

Como descobriu a ferrotipia?
Por meio do fotógrafo John Coffer, um mestre da ferrotipia que vive no norte do Estado de Nova York. Ele mantém um estilo de vida do século 19, sem eletricidade e conveniências modernas. A ferrotipia pode ser atribuída à lei de Murphy: se algo tem chance de dar errado, com certeza dará. Várias coisas podem acontecer durante o processo, incluindo problemas com a química ou com o calor. Na hora de fotografar, você tem de estar preparado: talvez chova, role uma ventania e estrague tudo. O processo todo é lento e demanda horas.

Com esse projeto, você quis provocar uma discussão sobre o ritmo non-stop atual?
De certa forma, sim. Utilizei uma técnica que é a antítese da fotografia digital. A natureza inerente desse processo inclusive desperta para a questão da velocidade do tempo. Além disso, as fotos exibem uma desaceleração, pois poderiam ter sido produzidas há 150 anos.  De toda forma, creio que estamos correndo contra o tempo, mas o desperdiçamos com bobagens.

*As fotos de Joni Sternbach mostram pessoas diferentes, mas que claramente formam um mesmo cardume. Não só porque gostam de surfar, mas porque usam a mesma ferramenta para conseguir equilíbrio. Remam para o oceano, para se religarem. Não só (ou necessariamente) ao cardume, mas para religar seus saberes internos, aquelas mesmas evidências da alma, que vão se apagando, se diluindo e esmaecendo, quando nada é feito contra a ação da correria burra, da vida meramente cerebral, do chamado turbilhão de informação, do fluxo indomável de pensamentos, de afazeres, de metas, de missões, de prazos, de disputas, da competição doente por poder e acumulação e de expectativas que nunca são satisfeitas ou nem sequer relativamente domadas.

Paulo Lima

A reportagem completa cujo tema é Desaceleração pode ser vista e lida na edição 181 da Revista Trip.Boas reflexões!

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