A boa foto é uma escolha

Luis Humberto

Mário Henrique Simonsen, ex-ministro da Fazenda, 1976

A edição da boa fotografia em um veículo de comunicação é uma questão central pouco debatida hoje em dia. Precisamos debater melhor os processos de edição e escolhas das fotografias que irão, junto com o texto, informar um determinado fato.

Uma cobertura fotográfica é um discurso de muitas imagens. É questionável apostarmos que uma só fotografia seja a síntese de uma ação que pode ter se desenrolado em segundos, minutos e até em horas. Mas os editores sempre querem a foto que seja o resumo simbólico e icônico dos fatos. A fotografia é um discurso, e como tal precisa de retóricas e construção de sentidos.

Ainda se discute muito a técnica em detrimento da linguagem. Há novidades tecnológicas surgindo a cada segundo e assim nos encontros de profissionais da fotografia, e não é de hoje, a principal discussão são os novos equipamentos lançados, as lentes, os novos recursos, se filma ou não, a quantidade de megapixels, etc. Mas o que esta máquina vai fazer? A subjetividade do olhar que decide é a questão central do fazer fotográfico.

Por outro lado, a edição é também um momento crucial no processo do fazer o fotojornalismo. Há em geral, um despreparo para desempenhar o papel de editor de fotografia. Não basta experiência no fazer, é preciso uma reflexão filosófica sobre o material sem abrir mão da estética, é claro. Afinal, um discurso visual não se faz apenas com o conteúdo.

O que acontece em muitos casos é pensar a fotografia apenas como uma tradução visual do texto. A fotografia traz sutilezas que pertence ao mundo das imagens. É preciso saber reconhecer estas sutilezas.

As universidades têm um papel e uma responsabilidade fundamental na mudança, ou manutenção, deste quadro que hoje aí está. Precisamos rever o modelo de ensinar a fotografar aos futuros jornalistas. Aprender a olhar, interpretar e eleger uma boa fotografia precisa ser cada vez mais inserido nos planos de aula e de cursos.

A digitalização da fotografia, da notícia e dos veículos empobreceu nosso jornalismo. Há também uma necessidade inconsequente por rapidez, combinada com a banalização no acesso ao mercado, com profissionais cada vez com formações mais precárias.

O somatório de tudo impacta na qualidade das fotografias publicadas. Muitas vezes a boa foto foi feita, mas não é escolhida.

A edição hoje deveria estar no centro das discussões da qualidade fotográfica de nossos veículos de comunicação.

Rinaldo Morelli

6 Respostas to “A boa foto é uma escolha”

  1. […] A boa foto é uma escolha […]

  2. afotobrasilia Says:

    “Puxa e uma pena vc não ter participado deste processo de edição de
    jornais diarios, vc, seria com certeza uma luz no fim do tunel dentro
    deste processo de edição dentro das editorias de fotografia.
    Comandante, antigamente existia um picotador de negativo (metal) que o editor
    de fotografia editava o filme picotando,Eu particularmente chamava o
    editor de “picotador de filme”.Por varios motivos!!!
    Na decada de 80/90 ainda exiatiam editores de departamento
    fotografico, hj os editores perderam para o editor de artes do jornal,
    e o cara que fica em cima do “espelho” do jornal. se ele abre o buraco
    de uma foto quadrada vai ser quadrada e acabou.
    Comandante, hj os tempos são outros!! Um exemplo porque o CB paga até o
    decimo quarto salario? porque o nosso governador ta pagando!!! não
    adianta chegar uma puta foto do Gov. Arruda que não vai sair (que
    comprometa os interesses dele e do jornal)!!
    A mesma coisa dos grandes Jornais de São Paulo
    (Estadao/Folha/Veja/Istoe/etc. Se rolar uma foto do Kassab que
    comprometa tambem!!! não vai rolar.
    Esta acabando aquele sonho dos fotojornalistas de jornais fazer
    grandes reportagens, rola so publicidade nos lugares das grandes
    materias.
    Pra finalizar, como sou da velha quarda, eu não acredito nestes grandes
    nomes(fotografos) que foram e outros que ainda continuam nos grandes
    jornais como coordenador de fotografia, sabe porque? Esta rapaziada
    já sacaniaram muita gente boa em troca de coberturas, tipo: Grandes
    Viagens, Copas do Mundo, Reportagens Especiais,Olimpiadas o que vc
    imaginar de belas pautas. ACABOU!! agora o interesse dos patroes é
    quanto mais Cadernos de Pubicidade melhor, é isto que esta casta de
    corjas de governantes e de politicos aplicam o que roubam de nossos inpostos.
    Não vejo mais sentido a edição de fotos nos jornalecos de hj.”

    Abs,

    Ivaldo Cavalcante
    http://www.jornalolhodeaguia.com.br/bef.htm

  3. Ivaldo, edição é a escolha, é o discurso, é a ideologia do autor e do veículo.
    É uma pena que estejamos perdendo isso…

  4. Caramba,esse é um tema realmente legal de se discutir,acho que o que o mestre Morelli disse tem muita importancia para mim.Desde que adquiri mais consciencia como fotógrafo,passei a ser favorável a exigência do diploma para meus companheiros que estão por entrar na profissão.Na minha opinião nem existe esse tal cargo de editor de fotografia,quem define foto em jornal é o diagramador e as vezes o editor de texto.Os diretores/editores importantes das empresas jornalisticas são todos repórteres,não fotógrafos.E por que isso acontece?Simples,basta conviver no meio fotográfico e qualquer um pode ver,o nível de formação do fotógrafo é infinitamente inferior,comparado ao do repórter.Dai eu ser favorável a uma melhor formação para o fotógrafo,uma universidade diminuiria a distancia gigantesca entre repórteres e fotógrafos e nos colocaria em melhor condição de assumir cargos mais importantes em um jornal.Dai talvez possamos pleitear essa ou aquela foto.

    • Grande Ed

      Também concordo que os fotógrafos deveriam ter, e se preocupar em ter, uma melhor formação.
      Mas será que é um curso superior? Não sei…
      Os repórteres de texto têm essa formação, incluvide em relação à fotografia e à imagem, mas quando chegam no mercado parece que emburrecem… ou oscursos não foram eficientes para falar da imagem.

  5. Alexandra Martins Says:

    “Há em geral, um despreparo para desempenhar o papel de editor de fotografia. Não basta experiência no fazer, é preciso uma reflexão filosófica sobre o material sem abrir mão da estética, é claro. Afinal, um discurso visual não se faz apenas com o conteúdo.”

    Creio que a didatura do tempo (a grande vilã para tudo no fotojornalismo) é uma das responsáveis por esse empobrecimento na edição das imagens.

    Aliais, diria que há várias edições de imagens durante todo processo: há o recorte (enquadramento) da imagem feita pelo própri@ profissional; há a escolha do que o profissional apresentará para o chefe – em algumas redações há um número máximo de fotos para serem abaixadas – e há a palavra final, do editor de imagens.

    E mesmo com essa série de edições, ainda há periódicos onde pode-se perceber um certo empobrecimento na edição das imagens.

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