Arquivo de janeiro, 2010

Nova Lei da Cultura

Posted in Notícias on 29/01/2010 by afotobrasilia

O Projeto de Lei que substitui a Lei Rouanet (Lei nº 8.313/1991) entra na pauta do Congresso Nacional no retorno do recesso parlamentar, em fevereiro. Nessa quarta-feira, 27 de janeiro, o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, encaminhou à Câmara dos Deputados o texto que torna a lei da cultura mais abrangente e dinâmica.
Seus objetivos centrais são ampliar os recursos da área e, ao mesmo tempo, diversificar os mecanismos de financiamento de forma a desenvolver uma verdadeira Economia da Cultura no Brasil.
Em linhas gerais, as principais novidades são a renovação do Fundo Nacional de Cultura (FNC), reforçado e dividido em nove fundos setoriais; a diversificação dos mecanismos de financiamento; o estabelecimento de critérios objetivos e transparentes para a avaliação das iniciativas que buscam recursos; o aprofundamento da parceria entre Estado e sociedade civil para a melhor destinação dos recursos públicos; e o estímulo à cooperação federativa, com repasses a fundos estaduais e municipais.
Financiamento
A nova lei transforma o Fundo Nacional de Cultura (FNC) no mecanismo central de financiamento ao setor, criando formas mais modernas de fomento a projetos. Garante-se, assim, que os recursos cheguem diretamente aos proponentes, sem intermediários e com maior participação da sociedade, por meio da Comissão Nacional de Incentivo à Cultura (CNIC), que dará origem a comissões setoriais.
Em 2010, como parte de um processo de transição, o Ministério da Cultura se prepara para a implementação da nova lei. O FNC, por exemplo, recebeu dotação orçamentária recorde, acima de R$ 800 milhões, e fará repasses a fundos estaduais e municipais, impulsionando a cooperação federativa.
Dentro do FNC serão criados oito fundos setoriais: das Artes Visuais; das Artes Cênicas; da Música; do Acesso e Diversidade; do Patrimônio e Memória; do Livro, Leitura, Literatura e Humanidades, criado por lei específica; de Ações Transversais e Equalização; e de Incentivo à Inovação do Audiovisual. Eles se somam ao já existente Fundo Setorial do Audiovisual (FSA).
Transparência
O Projeto de Lei cria um sistema público e transparente de critérios tanto para o acesso aos recursos do FNC quanto do incentivo fiscal. Estado e patrocinadores serão estimulados a aprimorar seus mecanismos de relação com os produtores e artistas com a divulgação de critérios claros para avaliar a dimensão simbólica, econômica e social para o uso do recurso público.
Com base nas diretrizes anuais da CNIC, cuja função é avaliar tecnicamente os pedidos de aprovação de incentivo fiscal, serão criadas comissões setoriais, com composição paritária, formadas por especialistas representantes dos diversos segmentos culturais e com ampla participação da sociedade civil, garantindo a preservação de um patrimônio recentemente conquistado pela sociedade brasileira: a liberdade de expressão. Esse processo também vai agilizar e aperfeiçoar o sistema de análise dos projetos.
Novas modalidades de acesso
Além do fortalecimento do Fundo, o Ministério da Cultura inseriu na proposta da nova lei formas de aprimorar o sistema de avaliação de projetos e diminuir a burocracia. Além do convênio, serão concedidas bolsas e prêmios. A prestação de contas será mais simples, com foco nos resultados do projeto e não apenas em seus aspectos contábeis.
No Projeto de Lei, pessoas físicas e jurídicas, com ou sem fins lucrativos, passam a ter direito de apresentar projetos. A natureza cultural deve estar agora na iniciativa, não no proponente. Ficará estabelecido o prazo de 30 dias para que o Ministério da Cultura conclua a avaliação do projeto cultural.
Investimento
Com o objetivo de atender toda a diversidade cultural brasileira, a proposta da nova lei diversifica, também, os mecanismos de investimento e apoio. Entre elas está o ‘endowment’. Trata-se de um incentivo para que fundações culturais – museus, orquestras e outros equipamentos – constituam um fundo permanente de aplicações de longo prazo, com o objetivo de obter sustentabilidade, estabilidade financeira e diminuir a dependência da renúncia fiscal em sua modalidade atual.
Outro mecanismo é o Fundo de Investimento em Cultura e Arte (Ficart), no qual os investidores se tornam sócios de um projeto cultural. O Ficart ganha agora o incentivo que o tornará atrativo e viável, o que a lei atual não permite.
Veja aqui a integra do projeto.

Imagens humanas

Posted in Eventos - Brasília, Notícias on 27/01/2010 by afotobrasilia

Dia 29/01, a partir das 19h00, haverá uma visita guiada com o autor e debate (“Fotografia, Resistência e Identidade”) com a participação de Ripper e do também fotógrafo André Vilaron.

ÚLTIMOS ROMÂNTICOS

Posted in Notícias on 27/01/2010 by afotobrasilia

Com escassez de matéria-prima e laboratórios de revelação, o processo de fotografia analógica vira um ato de resistência

 Nahima Maciel – Correio Braziliense

Publicação: 21/01/2010

Nos primeiros meses do ano 2000, o comerciante Jonas Antônio ligava para os fornecedores de filmes analógicos e encomendava seis mil unidades das pequenas bobinas de película fotográfica. No mês passado, o pedido foi de apenas 200. E muitas delas ainda estão nas prateleiras da loja no início da Asa Sul. Jonas Antônio só insiste em renovar as encomendas porque costuma receber telefonemas de fotógrafos da cidade. São profissionais e amadores insistentes que não querem se desvencilhar da máquina analógica, não cogitam substituí-la inteiramente pela tecnologia digital e enfrentam a dificuldade de conseguir material para a prática.

A fotografia digital tomou conta do mercado e, diante da demanda cada vez menor, os fabricantes de materiais para produção de imagens analógicas já não se empolgam. “Tem muitos produtos para os quais não temos nem mais fornecedor”, conta Jonas Antônio, que trabalha no comércio de material fotográfico em Brasília há mais de três décadas. Das quatro máquinas antigamente disponíveis para revelação de filmes analógicos, o comerciante já desativou uma. “Vou ficar só com duas. Não tenho demanda”, avisa. No primeiro andar da loja, Jonas Antônio ainda mantém um laboratório para revelar artesanalmente filmes em preto e branco. As ampliações, no entanto, são realizadas nas máquinas digitais. Os ampliadores viraram sucata e têm tão pouco valor comercial que Antônio nem pensa em vendê-los. A situação se repete em praticamente todos os cinefotos da cidade.

Fazer fotografia analógica – especialmente em preto e branco – é movimento de resistência em Brasília. Profissionais antes acostumados a comprar desde a química para revelar os filmes até o papel fotográfico hoje penam até para encontrar filmes para cromos. “Não tem”, avisa Jonas Antônio. A solução é se dividir entre as tecnologias digital e analógica. Os fotógrafos que ainda utilizam filmes e ampliadores fazem isso apenas em trabalhos autorais ou de pesquisa experimental. Quando se trata de produção comercial, o digital, mais barato, rápido e manipulável, toma a frente. Discursos radicais em defesa da foto analógica já não cabem no cenário. A postura é mais romântica.

Luiza Venturelli

Apartamento e laboratório

Para driblar o mercado, Rinaldo Morelli montou no próprio apartamento um minilaboratório. “O digital é prático, isso é inquestionável, você tem acesso rápido à foto, há possibilidade de manipulação no computador. Só que o digital transfere parte do processo criativo para o de pós-produção. O analógico é resolvido no clique, a possibilidade de manipulação é menor. Do ponto de vista de linguagem, o analógico ainda guarda uma magia que o digital não tem porque é tão rápido que prescinde da técnica.” Morelli reserva o processo digital para trabalhos comerciais. A pesquisa autoral é toda feita com câmeras analógicas.

Rinaldo Morelli

Olivier Boëls é radical. Confessa não gostar nem um pouco do processo digital, embora use eventualmente. “A fotografia virou uma coisa muito descartável. Os fotógrafos veem menos o trabalho porque produzem muito mais. Não é o mesmo processo que receber o negativo, prestar atenção”, diz. Há três anos, Boëls desativou o próprio laboratório. A falta de material motivou o fotógrafo a guardar os equipamentos. Nesse período, também deixou um pouco de lado o preto e branco para investir em trabalho colorido, sempre realizado em negativo.

Olivier Boëls

Embora não seja tão radical ao ponto de não gostar do processo digital, Ricardo Labastier segue o mesmo caminho. Na série de retratos em estúdio nos quais trabalha atualmente, Labastier utiliza câmera de médio formato, com negativos em 6X6. Depois de revelar, digitaliza os negativos para ampliar as cópias em digital. “Nesse caso, não tem romantismo, gosto do processo, da hora de estar fotografando, de não olhar o resultado na hora, da surpresa ao revelar. Mas não tenho muito isso de que o que o legal era o laboratório. O legal era a não pressa para as coisas. Hoje é tudo muito nervoso, o cara faz e já coloca no blog, no Flickr.” No fotoclube f/508 também há um núcleo de resistentes encabeçados por Humberto Lemos que procura nunca deixar para trás a fotografia analógica. Na nova sede do espaço, Lemos comercializa produtos como as câmeras Lomo e filmes para estimular amadores e profissionais. Também com a intenção de resistir, José Rosa vai mais além e investe na construção de câmeras pin-hole, representantes mais simplórias da fotografia analógica.

Ricardo Labastier
LABORATÓRIO ARTESANAL
Para os românticos, o fotógrafo Kazuo Okubo promete um alento. Ele pretende montar na galeria Casa da Luz Vermelha um laboratório inteiramente analógico destinado aos fotógrafos saudosos do processo. O projeto deve ficar pronto até o meio do ano e oferecerá revelação e ampliação artesanal de imagens em preto e branco. “Na minha opinião, o analógico não morreu e não vai morrer, acho até que vai dar uma renascida. O digital é uma mídia e o filme é outra, tem muita gente a fim de resgatar a foto analógica”, garante. Okubo tem guardado 150 metros de filme p/b com os quais pretende produzir um longo ensaio ainda este ano. “Tenho meu equipamento analógico antigo e não vendi; não tem valor de revenda, prefiro guardar. Essas câmeras hoje têm valor histórico.”

Ninho na UnB

Na Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (UnB), o laboratório de revelação de fotografia em preto e branco é um ponto de resistência. A administração da universidade já quis substitui-lo por um laboratório digital, mas os professores fizeram questão de manter o local intacto. “Faz parte da nossa proposta de ensino manter o laboratório como parte fundamental para entender o que é fotografia. É um elemento de ensino e pesquisa”, conta Marcelo Feijó, professor de fotografia da FAC.

Até os anos 1990, o laboratório da FAC era pequeno para a demanda dos alunos. A utilização precisava ser agendada e organizada para dar conta da frequência. %u201CO interesse caiu um pouco em função do digital, existe um deslumbramento com a nova mídia, mas alguns alunos se interessam”, diz Feijó. Luiz Gustavo Prado, técnico responsável pelo espaço, também aponta uma diminuição na procura. “É bem esporádica, mas o laboratório não vai acabar porque tem um núcleo de resistência na comunicação.” O próprio Prado integra o núcleo. Passo ao largo dos processos digitais e anda em sentido contrário na linha do tempo dos equipamentos. Gosta de experimentar coisas antigas, como as revelações em cianótipo, que imprimem a imagem azulada em papel comum e fotografias em grande formato com negativos em chapas de vidro.

O Firmo dos excluídos

Posted in Inspiradores, Para Refletir on 11/01/2010 by afotobrasilia

Rio de Janeiro, 1992 

“O grande assunto da minha vida, meu grande projeto, são os negros, os ofendidos, os humilhados”, diz Walter Firmo, um dos mais premiados fotógrafos brasileiros, em entrevista publicada na revista Photos&Imagens nr. 17 – Fevereiro/Março 2001 

André Teixeira 

 Em Paris ele é mais conhecido como “monsieur Silva”. Nada mais adequado para um fotógrafo que há quase 50 anos vem marcando presença no panorama artístico brasileiro e internacional com imagens que mostram a beleza, dignidade e até uma certa nobreza do povo brasileiro. “O grande assunto da minha vida, meu grande projeto, são os negros, os ofendidos, os humilhados”, diz Walter Firmo Guimarães da Silva, um dos mais premiados fotógrafos do país – só o Prêmio Nikon, um dos mais badalados da categoria, levou oito vezes para casa.Firmo, conhecido como um excepcional colorista, expôs até o final do ano passado na Câmara Clara, no Rio, preciosidades em preto-e-branco que produziu nos primeiros sete anos de carreira. Pérolas que estavam escondidas em gavetas empoeiradas ou prosaicos sacos de supermercado fechados com fita crepe. “São minhas filhas bastardas”, brinca. Depois de marcar época no fotojornalismo por quase 40 anos, com passagens pelo Jornal do Brasil, Última Hora e revistas como Veja, Istoé, Manchete e Realidade, Firmo vem se dedicando a projetos pessoais e à tarefa de passar um pouco da experiência acumulada nesse tempo aos alunos – há oito anos, dá cursos no Ateliê da Imagem, também no Rio. Um desses projetos mostra com clareza a inquietude e imaginação fértil desse sessentão com mais de um milhão de cliques na bagagem: está fotografando postes – sim, postes. “Tudo que pode acontecer na vida de um poste. É um tema, cara!”, garante, num dos trechos da entrevista que concedeu à Photos dias antes de viajar para Paris para mais uma exposição. 

Photos – Como começou a fotografar? Como a fotografia entrou na sua vida? 

Walter Firmo – Estava na biblioteca do colégio Atheneu Brasileiro, fazendo uma pesquisa para um trabalho do ginásio e encontrei um livro sobre fotografia – mais especificamente sobre revelação, laboratório – e nele vislumbrei essa possibilidade da luz, da bruxaria da foto. Comecei a ver esse negócio de hipossulfito, da química, o peso que cada elemento possuía na revelação, fixação ou interrupção, e aí uma luz me surgiu. Sabe aquelas pinturas holandesas da Renascença, em que entra aquela luz pelo vitrô da janela? A sensação que tive foi essa – um anjo anunciador me dizia: essa vai ser a sua praia. 

Photos – Qual era sua idade? 

Walter Firmo – Tinha 17 anos. Passei a viver intensamente o mundo fotográfico, essa existencialidade de perpetuação, de conviver com a bruxaria da revelação, as pessoas surgindo ali no papel, debaixo daquela água. Você até as três, quatro, cinco da manhã, insone, trabalhando com essas realezas, essa magia de conseguir parar o tempo que foi uma realidade que não é mais. Fundamentalmente, foi isso que me levou num primeiro momento a seguir o caminho da fotografia. 

Photos – Mas ela poderia ter se tornado um hobby, não uma profissão? Por que isso aconteceu? 

Walter Firmo – Essa é uma boa pergunta, que ninguém nunca me fez. Estou tentando responder primeiro para mim. Acho que o sentido de justiça que sempre esteve comigo, da verdade, de realizar um discurso humanístico. Posso dizer, pensando grande, que foi na direção da arte, da poesia, de trabalhar com a luz, com os movimentos da composição e tentando colocar uma notícia – minha meta era trabalhar em jornal – nova, diferente, que saísse daquela mesmice obtusa da realidade verdadeira, do mero registro. 

Rio de Janeiro, 1980 

Photos – Você começou com PB, ficou sete anos exclusivamente nessa praia e de repente descambou para a cor. O que aconteceu para essa virada? 

Walter Firmo – Nesses primeiros sete anos, trabalhei no Última Hora e no Jornal do Brasil. A cor veio como um desses cavalos, um desses alazões que passam por você à toda e te levam. Esse alazão foi um fotógrafo chamado David Drew Zing, um americano que chegou no início dos anos 60 e fazia grandes ensaios na Manchete, todos coloridíssimos, envolvendo nossa paisagem tropical, nosso conteúdo não só visual, tropical, paisagístico, mas também e principalmente trabalhando com as pessoas, dignificando-as dentro desse panorama. Trabalhava com cores muito fortes, não negando esse ponto, sem esconder nossas identidades. Fui tocado pela força daquela cor, que é tão nossa. 

Photos – A cor então te seduziu… 

Walter Firmo – Anos depois, quando fui visitar a Europa, vi que eles não têm nada a ver com essa cor. Descobri que ela é nossa. Eu tinha que fazer isso, trabalhar com essa cor. Gosto de alegorizar, criar alegorias em relação ao pensamento, e tinha dificuldades, fazendo essa fronteira entre o PB que já fazia e uma nova vertente visual que me surgia, em trabalhar com a poesia usando as cores como fazia com o PB. Usava outro discurso. Queria contar outras histórias, brasileiras, e só a cor me permitiria isso. Fiz uma espécie de mestrado e doutorado nessa razão semântica que o David me passou, por que ele, vindo de outro país, nos via não de uma forma bizarra, mas de uma forma muito bonita e intensamente colorida. 

Photos – Talvez como estrangeiro ele tivesse mais facilidade em ver essa cor como uma característica nossa… 

Walter Firmo – Ele ficou encantado com a felicidade de um país que tem essas cores, essa luz. Isso era coisa que no PB eu não podia fazer. Quando saí do JB em 64, convidado para participar de um projeto grandioso que ia se realizar em São Paulo – a revista Realidade, que se mostrou uma grande escola de jornalismo –, me transferi para São Paulo e comecei a trabalhar em cor. Não parei mais. Por isso, nas revistas em que trabalhei depois, como Manchete, Desfile, Fatos e Fotos, Veja, Istoé, em todas eu trabalhei com cor, porque era o diferencial a cor. Por isso fiquei conhecido como fotógrafo colorista, mas nem por isso abandonei o PB. O tempo todo eu tinha o PB do meu lado, e fazendo um trabalho diferente do colorido. 

Photos – Esse é um ponto interessante. O seu olho funciona diferente quando você trabalha com o PB? 

Walter Firmo – Com certeza. São dois discursos, inteiramente diferentes. Falo sempre isso para meus alunos, para as pessoas. São duas comunicações semânticas e visuais diferentes. Uma é a cor, em que você trabalha com os sinais da luz, da cor, em que você pode trabalhar muito com ensaios, efeitos. Trabalhei muito com ensaios sobre figuras da nossa cultura em cor.

Cerro, 1976 

Photos – E o preto-e-branco? 

Walter Firmo – O PB é mais notícia. Situo essas duas linguagens numa frase do Luis Manfrido – um fotógrafo italiano que viveu muito tempo no Brasil – que é transcendental. Ele dizia que o mundo era colorido, mas a vida não. Você pode realizar alegorias e mostrar um mundo mais bonito trabalhando em cor. Com PB, não. É outro discurso, o discurso da seriedade, de um sonho onírico mas com outros valores morais – eu coloco aspas nesses “morais” – que a cor não tem. E há coisas que a cor tem que no PB não dá para chegar. 

Photos – Então algumas fotos só valem no PB, outras só na cor? 

Walter Firmo – São dois discursos paralelos. Você vendo minha bagagem, meu trabalho nos dois discursos, vê que são inteiramente diferentes. Algumas fotos eu não faria com cor. No PB eu posso ser mais sutil, fino, bem-educado, trabalhando com uma inteligência que é única no discurso da fotografia e que outras artes visuais não têm. Porque a fotografia se manifesta de uma realidade que não existe mais ela suga aquela realidade num infinito de segundo, para depois, naquela perpetuação, passar uma outra realidade…  

Photos – De onde você pode ter várias interpretações…  

Walter Firmo – Exato. Várias interpretações. Isso fica muito bem no PB. A cor tem um outro devaneio, embora também se aproprie dessa realidade. Acho fantástica a fotografia. Se tivesse que recomeçar faria tudo outra vez, porque é uma coisa que gosto de fazer, sou inteiramente apaixonado. Sou sexagenário e tenho a mesma impetuosidade de trabalhar nos meus projetos pessoais. Hoje já não sou muito convidado para fotografar para a grande imprensa, apenas excepcionalmente, então estou preso aos meus projetos particulares, porque senão eu morro. Estou sempre colocando alguma coisa na cabeça para realizar. 

Photos – Quais são esses projetos? 

Walter Firmo – Tenho vários. Num deles, que certamente será o projeto da minha vida, venho trabalhando com o negro. Um elemento que sempre pertenceu a uma sociedade invisível – me lembro que quando comecei a trabalhar, em 1957, o único que fotografava esses tipos era o José Medeiros, meu ídolo. Ninguém fotografava negros, a não ser quando eram cantores ou jogadores de futebol. Eu achava isso estranho, e numa viagem para Nova York, onde morei, e onde fui discriminado, comecei a ter uma outra visão. Lá, vendo os black phanters, aquela coisa de que negro é lindo, cabelos grandes, voltei com cabelo grande, lá eu mudei meu discurso, fiz minha plataforma, comecei a usar minha foto como um discurso político. A fotografia tem que ter um discurso político. 

Leia essa entrevista na íntegra aqui

Arthur Monteiro 

Biografia 

Autodidata, iniciou sua carreira como repórter fotográfico do jornal Última Hora, no Rio de Janeiro, em 1957. Nos anos 60 trabalhou no Jornal do Brasil, na revista Realidadee recebeu o Prêmio Esso de Reportagem. Em 1967 passou seis meses em Nova Iorque trabalhando na sucursal da Editora Bloch. A partir de 1971 trabalhou como freelance na área de publicidade, na indústria fonográfica e iniciou pesquisas sobre os costumes e festas populares das regiões brasileiras. Em 1985 ingressou na sucursal do Rio de Janeiro da revista Isto É. No período de 1986 a 1990 foi diretor do Infoto – Instituto Nacional de Fotografia. Ao longo de sua trajetória, foi contemplado com o Nikon International Photo Contestem 1973, 1974, 1975, 1976, 1980 e 1982; o prêmio Golfinho de Ouro do Governo do Estado do Rio de Janeiro em 1985 e a Bolsa de Artes do Banco Icatu, em 1998, com a qual viveu em Paris. Trabalha como fotógrafo independente e coordena cursos e oficinas de fotografia desde os anos 90.

Por que eu fotografo? Rinaldo Morelli

Posted in Por que eu fotografo? on 09/01/2010 by afotobrasilia

Por que eu fotografo? Pedro França

Posted in Por que eu fotografo? on 09/01/2010 by afotobrasilia

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Posted in Por que eu fotografo? on 09/01/2010 by afotobrasilia