O Firmo dos excluídos

Rio de Janeiro, 1992 

“O grande assunto da minha vida, meu grande projeto, são os negros, os ofendidos, os humilhados”, diz Walter Firmo, um dos mais premiados fotógrafos brasileiros, em entrevista publicada na revista Photos&Imagens nr. 17 – Fevereiro/Março 2001 

André Teixeira 

 Em Paris ele é mais conhecido como “monsieur Silva”. Nada mais adequado para um fotógrafo que há quase 50 anos vem marcando presença no panorama artístico brasileiro e internacional com imagens que mostram a beleza, dignidade e até uma certa nobreza do povo brasileiro. “O grande assunto da minha vida, meu grande projeto, são os negros, os ofendidos, os humilhados”, diz Walter Firmo Guimarães da Silva, um dos mais premiados fotógrafos do país – só o Prêmio Nikon, um dos mais badalados da categoria, levou oito vezes para casa.Firmo, conhecido como um excepcional colorista, expôs até o final do ano passado na Câmara Clara, no Rio, preciosidades em preto-e-branco que produziu nos primeiros sete anos de carreira. Pérolas que estavam escondidas em gavetas empoeiradas ou prosaicos sacos de supermercado fechados com fita crepe. “São minhas filhas bastardas”, brinca. Depois de marcar época no fotojornalismo por quase 40 anos, com passagens pelo Jornal do Brasil, Última Hora e revistas como Veja, Istoé, Manchete e Realidade, Firmo vem se dedicando a projetos pessoais e à tarefa de passar um pouco da experiência acumulada nesse tempo aos alunos – há oito anos, dá cursos no Ateliê da Imagem, também no Rio. Um desses projetos mostra com clareza a inquietude e imaginação fértil desse sessentão com mais de um milhão de cliques na bagagem: está fotografando postes – sim, postes. “Tudo que pode acontecer na vida de um poste. É um tema, cara!”, garante, num dos trechos da entrevista que concedeu à Photos dias antes de viajar para Paris para mais uma exposição. 

Photos – Como começou a fotografar? Como a fotografia entrou na sua vida? 

Walter Firmo – Estava na biblioteca do colégio Atheneu Brasileiro, fazendo uma pesquisa para um trabalho do ginásio e encontrei um livro sobre fotografia – mais especificamente sobre revelação, laboratório – e nele vislumbrei essa possibilidade da luz, da bruxaria da foto. Comecei a ver esse negócio de hipossulfito, da química, o peso que cada elemento possuía na revelação, fixação ou interrupção, e aí uma luz me surgiu. Sabe aquelas pinturas holandesas da Renascença, em que entra aquela luz pelo vitrô da janela? A sensação que tive foi essa – um anjo anunciador me dizia: essa vai ser a sua praia. 

Photos – Qual era sua idade? 

Walter Firmo – Tinha 17 anos. Passei a viver intensamente o mundo fotográfico, essa existencialidade de perpetuação, de conviver com a bruxaria da revelação, as pessoas surgindo ali no papel, debaixo daquela água. Você até as três, quatro, cinco da manhã, insone, trabalhando com essas realezas, essa magia de conseguir parar o tempo que foi uma realidade que não é mais. Fundamentalmente, foi isso que me levou num primeiro momento a seguir o caminho da fotografia. 

Photos – Mas ela poderia ter se tornado um hobby, não uma profissão? Por que isso aconteceu? 

Walter Firmo – Essa é uma boa pergunta, que ninguém nunca me fez. Estou tentando responder primeiro para mim. Acho que o sentido de justiça que sempre esteve comigo, da verdade, de realizar um discurso humanístico. Posso dizer, pensando grande, que foi na direção da arte, da poesia, de trabalhar com a luz, com os movimentos da composição e tentando colocar uma notícia – minha meta era trabalhar em jornal – nova, diferente, que saísse daquela mesmice obtusa da realidade verdadeira, do mero registro. 

Rio de Janeiro, 1980 

Photos – Você começou com PB, ficou sete anos exclusivamente nessa praia e de repente descambou para a cor. O que aconteceu para essa virada? 

Walter Firmo – Nesses primeiros sete anos, trabalhei no Última Hora e no Jornal do Brasil. A cor veio como um desses cavalos, um desses alazões que passam por você à toda e te levam. Esse alazão foi um fotógrafo chamado David Drew Zing, um americano que chegou no início dos anos 60 e fazia grandes ensaios na Manchete, todos coloridíssimos, envolvendo nossa paisagem tropical, nosso conteúdo não só visual, tropical, paisagístico, mas também e principalmente trabalhando com as pessoas, dignificando-as dentro desse panorama. Trabalhava com cores muito fortes, não negando esse ponto, sem esconder nossas identidades. Fui tocado pela força daquela cor, que é tão nossa. 

Photos – A cor então te seduziu… 

Walter Firmo – Anos depois, quando fui visitar a Europa, vi que eles não têm nada a ver com essa cor. Descobri que ela é nossa. Eu tinha que fazer isso, trabalhar com essa cor. Gosto de alegorizar, criar alegorias em relação ao pensamento, e tinha dificuldades, fazendo essa fronteira entre o PB que já fazia e uma nova vertente visual que me surgia, em trabalhar com a poesia usando as cores como fazia com o PB. Usava outro discurso. Queria contar outras histórias, brasileiras, e só a cor me permitiria isso. Fiz uma espécie de mestrado e doutorado nessa razão semântica que o David me passou, por que ele, vindo de outro país, nos via não de uma forma bizarra, mas de uma forma muito bonita e intensamente colorida. 

Photos – Talvez como estrangeiro ele tivesse mais facilidade em ver essa cor como uma característica nossa… 

Walter Firmo – Ele ficou encantado com a felicidade de um país que tem essas cores, essa luz. Isso era coisa que no PB eu não podia fazer. Quando saí do JB em 64, convidado para participar de um projeto grandioso que ia se realizar em São Paulo – a revista Realidade, que se mostrou uma grande escola de jornalismo –, me transferi para São Paulo e comecei a trabalhar em cor. Não parei mais. Por isso, nas revistas em que trabalhei depois, como Manchete, Desfile, Fatos e Fotos, Veja, Istoé, em todas eu trabalhei com cor, porque era o diferencial a cor. Por isso fiquei conhecido como fotógrafo colorista, mas nem por isso abandonei o PB. O tempo todo eu tinha o PB do meu lado, e fazendo um trabalho diferente do colorido. 

Photos – Esse é um ponto interessante. O seu olho funciona diferente quando você trabalha com o PB? 

Walter Firmo – Com certeza. São dois discursos, inteiramente diferentes. Falo sempre isso para meus alunos, para as pessoas. São duas comunicações semânticas e visuais diferentes. Uma é a cor, em que você trabalha com os sinais da luz, da cor, em que você pode trabalhar muito com ensaios, efeitos. Trabalhei muito com ensaios sobre figuras da nossa cultura em cor.

Cerro, 1976 

Photos – E o preto-e-branco? 

Walter Firmo – O PB é mais notícia. Situo essas duas linguagens numa frase do Luis Manfrido – um fotógrafo italiano que viveu muito tempo no Brasil – que é transcendental. Ele dizia que o mundo era colorido, mas a vida não. Você pode realizar alegorias e mostrar um mundo mais bonito trabalhando em cor. Com PB, não. É outro discurso, o discurso da seriedade, de um sonho onírico mas com outros valores morais – eu coloco aspas nesses “morais” – que a cor não tem. E há coisas que a cor tem que no PB não dá para chegar. 

Photos – Então algumas fotos só valem no PB, outras só na cor? 

Walter Firmo – São dois discursos paralelos. Você vendo minha bagagem, meu trabalho nos dois discursos, vê que são inteiramente diferentes. Algumas fotos eu não faria com cor. No PB eu posso ser mais sutil, fino, bem-educado, trabalhando com uma inteligência que é única no discurso da fotografia e que outras artes visuais não têm. Porque a fotografia se manifesta de uma realidade que não existe mais ela suga aquela realidade num infinito de segundo, para depois, naquela perpetuação, passar uma outra realidade…  

Photos – De onde você pode ter várias interpretações…  

Walter Firmo – Exato. Várias interpretações. Isso fica muito bem no PB. A cor tem um outro devaneio, embora também se aproprie dessa realidade. Acho fantástica a fotografia. Se tivesse que recomeçar faria tudo outra vez, porque é uma coisa que gosto de fazer, sou inteiramente apaixonado. Sou sexagenário e tenho a mesma impetuosidade de trabalhar nos meus projetos pessoais. Hoje já não sou muito convidado para fotografar para a grande imprensa, apenas excepcionalmente, então estou preso aos meus projetos particulares, porque senão eu morro. Estou sempre colocando alguma coisa na cabeça para realizar. 

Photos – Quais são esses projetos? 

Walter Firmo – Tenho vários. Num deles, que certamente será o projeto da minha vida, venho trabalhando com o negro. Um elemento que sempre pertenceu a uma sociedade invisível – me lembro que quando comecei a trabalhar, em 1957, o único que fotografava esses tipos era o José Medeiros, meu ídolo. Ninguém fotografava negros, a não ser quando eram cantores ou jogadores de futebol. Eu achava isso estranho, e numa viagem para Nova York, onde morei, e onde fui discriminado, comecei a ter uma outra visão. Lá, vendo os black phanters, aquela coisa de que negro é lindo, cabelos grandes, voltei com cabelo grande, lá eu mudei meu discurso, fiz minha plataforma, comecei a usar minha foto como um discurso político. A fotografia tem que ter um discurso político. 

Leia essa entrevista na íntegra aqui

Arthur Monteiro 

Biografia 

Autodidata, iniciou sua carreira como repórter fotográfico do jornal Última Hora, no Rio de Janeiro, em 1957. Nos anos 60 trabalhou no Jornal do Brasil, na revista Realidadee recebeu o Prêmio Esso de Reportagem. Em 1967 passou seis meses em Nova Iorque trabalhando na sucursal da Editora Bloch. A partir de 1971 trabalhou como freelance na área de publicidade, na indústria fonográfica e iniciou pesquisas sobre os costumes e festas populares das regiões brasileiras. Em 1985 ingressou na sucursal do Rio de Janeiro da revista Isto É. No período de 1986 a 1990 foi diretor do Infoto – Instituto Nacional de Fotografia. Ao longo de sua trajetória, foi contemplado com o Nikon International Photo Contestem 1973, 1974, 1975, 1976, 1980 e 1982; o prêmio Golfinho de Ouro do Governo do Estado do Rio de Janeiro em 1985 e a Bolsa de Artes do Banco Icatu, em 1998, com a qual viveu em Paris. Trabalha como fotógrafo independente e coordena cursos e oficinas de fotografia desde os anos 90.

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