ÚLTIMOS ROMÂNTICOS

Com escassez de matéria-prima e laboratórios de revelação, o processo de fotografia analógica vira um ato de resistência

 Nahima Maciel – Correio Braziliense

Publicação: 21/01/2010

Nos primeiros meses do ano 2000, o comerciante Jonas Antônio ligava para os fornecedores de filmes analógicos e encomendava seis mil unidades das pequenas bobinas de película fotográfica. No mês passado, o pedido foi de apenas 200. E muitas delas ainda estão nas prateleiras da loja no início da Asa Sul. Jonas Antônio só insiste em renovar as encomendas porque costuma receber telefonemas de fotógrafos da cidade. São profissionais e amadores insistentes que não querem se desvencilhar da máquina analógica, não cogitam substituí-la inteiramente pela tecnologia digital e enfrentam a dificuldade de conseguir material para a prática.

A fotografia digital tomou conta do mercado e, diante da demanda cada vez menor, os fabricantes de materiais para produção de imagens analógicas já não se empolgam. “Tem muitos produtos para os quais não temos nem mais fornecedor”, conta Jonas Antônio, que trabalha no comércio de material fotográfico em Brasília há mais de três décadas. Das quatro máquinas antigamente disponíveis para revelação de filmes analógicos, o comerciante já desativou uma. “Vou ficar só com duas. Não tenho demanda”, avisa. No primeiro andar da loja, Jonas Antônio ainda mantém um laboratório para revelar artesanalmente filmes em preto e branco. As ampliações, no entanto, são realizadas nas máquinas digitais. Os ampliadores viraram sucata e têm tão pouco valor comercial que Antônio nem pensa em vendê-los. A situação se repete em praticamente todos os cinefotos da cidade.

Fazer fotografia analógica – especialmente em preto e branco – é movimento de resistência em Brasília. Profissionais antes acostumados a comprar desde a química para revelar os filmes até o papel fotográfico hoje penam até para encontrar filmes para cromos. “Não tem”, avisa Jonas Antônio. A solução é se dividir entre as tecnologias digital e analógica. Os fotógrafos que ainda utilizam filmes e ampliadores fazem isso apenas em trabalhos autorais ou de pesquisa experimental. Quando se trata de produção comercial, o digital, mais barato, rápido e manipulável, toma a frente. Discursos radicais em defesa da foto analógica já não cabem no cenário. A postura é mais romântica.

Luiza Venturelli

Apartamento e laboratório

Para driblar o mercado, Rinaldo Morelli montou no próprio apartamento um minilaboratório. “O digital é prático, isso é inquestionável, você tem acesso rápido à foto, há possibilidade de manipulação no computador. Só que o digital transfere parte do processo criativo para o de pós-produção. O analógico é resolvido no clique, a possibilidade de manipulação é menor. Do ponto de vista de linguagem, o analógico ainda guarda uma magia que o digital não tem porque é tão rápido que prescinde da técnica.” Morelli reserva o processo digital para trabalhos comerciais. A pesquisa autoral é toda feita com câmeras analógicas.

Rinaldo Morelli

Olivier Boëls é radical. Confessa não gostar nem um pouco do processo digital, embora use eventualmente. “A fotografia virou uma coisa muito descartável. Os fotógrafos veem menos o trabalho porque produzem muito mais. Não é o mesmo processo que receber o negativo, prestar atenção”, diz. Há três anos, Boëls desativou o próprio laboratório. A falta de material motivou o fotógrafo a guardar os equipamentos. Nesse período, também deixou um pouco de lado o preto e branco para investir em trabalho colorido, sempre realizado em negativo.

Olivier Boëls

Embora não seja tão radical ao ponto de não gostar do processo digital, Ricardo Labastier segue o mesmo caminho. Na série de retratos em estúdio nos quais trabalha atualmente, Labastier utiliza câmera de médio formato, com negativos em 6X6. Depois de revelar, digitaliza os negativos para ampliar as cópias em digital. “Nesse caso, não tem romantismo, gosto do processo, da hora de estar fotografando, de não olhar o resultado na hora, da surpresa ao revelar. Mas não tenho muito isso de que o que o legal era o laboratório. O legal era a não pressa para as coisas. Hoje é tudo muito nervoso, o cara faz e já coloca no blog, no Flickr.” No fotoclube f/508 também há um núcleo de resistentes encabeçados por Humberto Lemos que procura nunca deixar para trás a fotografia analógica. Na nova sede do espaço, Lemos comercializa produtos como as câmeras Lomo e filmes para estimular amadores e profissionais. Também com a intenção de resistir, José Rosa vai mais além e investe na construção de câmeras pin-hole, representantes mais simplórias da fotografia analógica.

Ricardo Labastier
LABORATÓRIO ARTESANAL
Para os românticos, o fotógrafo Kazuo Okubo promete um alento. Ele pretende montar na galeria Casa da Luz Vermelha um laboratório inteiramente analógico destinado aos fotógrafos saudosos do processo. O projeto deve ficar pronto até o meio do ano e oferecerá revelação e ampliação artesanal de imagens em preto e branco. “Na minha opinião, o analógico não morreu e não vai morrer, acho até que vai dar uma renascida. O digital é uma mídia e o filme é outra, tem muita gente a fim de resgatar a foto analógica”, garante. Okubo tem guardado 150 metros de filme p/b com os quais pretende produzir um longo ensaio ainda este ano. “Tenho meu equipamento analógico antigo e não vendi; não tem valor de revenda, prefiro guardar. Essas câmeras hoje têm valor histórico.”

Ninho na UnB

Na Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (UnB), o laboratório de revelação de fotografia em preto e branco é um ponto de resistência. A administração da universidade já quis substitui-lo por um laboratório digital, mas os professores fizeram questão de manter o local intacto. “Faz parte da nossa proposta de ensino manter o laboratório como parte fundamental para entender o que é fotografia. É um elemento de ensino e pesquisa”, conta Marcelo Feijó, professor de fotografia da FAC.

Até os anos 1990, o laboratório da FAC era pequeno para a demanda dos alunos. A utilização precisava ser agendada e organizada para dar conta da frequência. %u201CO interesse caiu um pouco em função do digital, existe um deslumbramento com a nova mídia, mas alguns alunos se interessam”, diz Feijó. Luiz Gustavo Prado, técnico responsável pelo espaço, também aponta uma diminuição na procura. “É bem esporádica, mas o laboratório não vai acabar porque tem um núcleo de resistência na comunicação.” O próprio Prado integra o núcleo. Passo ao largo dos processos digitais e anda em sentido contrário na linha do tempo dos equipamentos. Gosta de experimentar coisas antigas, como as revelações em cianótipo, que imprimem a imagem azulada em papel comum e fotografias em grande formato com negativos em chapas de vidro.

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