Antônio Guerreiro

O Estilo Guerreiro

         Existem fotógrafos que ocupam demasiadamente o espaço, a mente, o olhar e as próprias emoções do observador. Planejam tudo meticulosamente, para que tenhamos de cada foto sua exatamente a leitura ou a impressão que ele previamente arquitetou. Cabe ao observador apenas aprovar, ou saborear algum interesse técnico na imagem. O fotógrafo se emocionou por ele, pensou por ele, tremeu em seu lugar.

         Para nossa felicidade de amantes da fotografia como expressão artística, Antonio Guerreiro nunca operou dessa forma, que empobrece o olhar. Ao plasmar cada uma de suas fotos como um espetáculo, ele investe na fantasia, no acaso, na surpresa, na abertura do nosso imaginário. Nenhuma de suas fotos de nus, por exemplo, é vulgar, diretamente sexualizada. Aliás, ele abandonou conscientemente o universo das revistas masculinas quando elas se tornaram veículos de grosseiros apelos sensoriais. Guerreiro atuou nesse universo no tempo em que era permitido e incentivado sonhar. Suas fotos eróticas são arquiteturas de sonhos, são criativas fotodelírios. Tempo feliz, onde a produção não precisava ser tão econômica, tão rápida e tão mecanizada como nos dias de hoje.

As fotos de Antonio têm uma qualidade única, que se tornou sua assinatura: uma energia extra, que transborda do modelo. Não raras vezes Antonio Guerreiro declarou que suas fotos “transformavam mulheres em deusas”. A afirmação, aparentemente uma simples figura de linguagem, deve ser tomada ao pé da letra. Há, efetivamente, algo maior na sua intenção de fotógrafo, contrária à redução do corpo feminino à condição de obscuro objeto do nosso desejo – e que visa alçá-lo a uma condição olímpica (palavra usada aqui no sentido de morada dos deuses, não no sentido da perfeição atlética). Antonio parece querer nos revelar esse brilho superior do ser humano, a beleza que irradia de dentro, que é pessoal e intransferível em cada modelo.

         Nesse contexto, Antonio Guerreiro busca mais que registrar a beleza estética dos homens e mulheres que ficaram frente às suas câmeras. Sua percepção não se fecha na magia do momento raro de uma pose, um movimento, um detalhe irresistível da anatomia. A captura da beleza num instante único é decerto uma feliz feitiçaria, mas ele sabe que isso é apenas fetiche, não alcança a condição de espetáculo. A mera harmonia estética de uma imagem não incomoda, é um signo puro demais, não produz grandes efeitos sobre o observador além do tempo de uma leitura efêmera. A simples in-formação não traz consigo nenhuma perturbação psicológica. Antonio persegue o arrebatamento. A fotogenia, para ele, é apenas a plataforma básica da expressão artística através da fotografia. Ele não quer apenas uma retórica fotográfica (um discurso primoroso, porém vazio de conteúdo). Guerreiro desenvolveu obstinadamente uma linguagem fantasiosa, polivalente, aberta a múltiplas leituras, que se expressa como uma espécie de canto demiúrgico. Sobretudo nas suas fotos de mulheres, ele quer desvendar com os poderes da luz o arquétipo de cada modelo, a deusa inefável que nela habita. Espetáculo, sim, mas não apenas na superfície. Antonio quer operar prodígios, ultrapassar a dimensão banal do admirável, para produzir imagens de alta voltagem positiva, capazes de imprimir asas à percepção do observador. Consciente ou inconscientemente, as mulheres perceberam esse feitiço e passaram a fazer fila na porta de seu estúdio.

Mário Margutti em Junho de 2003.

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